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Contexto de época
A década de 50 foi marcada
no âmbito social, político e econômico, por uma série
complexa de transformações que insinuavam o perfil de um
momento de uma "nova modernidade", que forneceria um ambiente
estimulante para o desenvolvimento de sugestões renovadoras nas
artes.
Não apenas a sociedade brasileira, mas todo o sistema internacional,
experimentou mudanças extraordinárias . Uma nova arrancada
tecnológica ocorreu no interior de um processo de remanejamento
das relações internacionais que permitia a certos países
tipicamente "subdesenvolvidos", como o Brasil, alcançarem,
dentro de certos limites e em determinados setores, um razoável
padrão de modernização industrial.
O governo de Juscelino Kubstchek, cujo lema era "50 anos em 5",
tinha como finalidade, com o seu "Programa de Metas", modernizar
o Brasil dotando-o de indústrias de base e de bens de consumo.
É nesse período que a sociedade brasileira adquiria definitivamente
sua feição urbana , movida pela ideologia do desenvovimento
e pela associação com capitais externos, com a instalação
de um novo e sofisticado parque industrial. Pela primeira vez em sua história,
as massas urbanas despontavam no cenário político e a cidade
transformava-se, sem possibilidade de retorno, no centro decisório
da vida nacional.
Essa configuração de um setor urbano-industrial moderno
estreitava, como nunca, os laços entre o processo social interno
e a dinâmica do sistema internacional. Uma área considerável
da população passava a desfrutar de uma experiência
social cada vez mais próxima a dos habitantes dos maiores centros
urbanos internacionais. Diminuíam as distâncias e aumentava
a sensibilidade para as conquistas tecnológicas que repercutiam
rapidamente na configuração do imaginário urbano
e na própria conformação do cotidiano das grandes
cidades. Em 1950, o Brasil já tinha transmissões regulares
de TV, sabia que um certo Peter Goldmark inventou o Long-play, no mesmo
ano (1948) em que três americanos formularam a teoria dos transístores
e construíram os primeiros exemplares; já ouvira falar em
cibernética e no "cérebro eletrônico", criado
em 1946, na Universidade da Pensilvânia, tinha notícia de
que a Força Aérea dos EUA havia feito o primeiro vôo
a jato cruzando o país e admirava o gênio de Einstein que
expandira a fantástica Teoria da Relatividade na Teoria Geral do
Campo. Sete anos depois, já empolgados pela mobilização
ideológica do desenvolvimento de JK, os brasileiros- que já
haviam se surpreendido com a produção da primeira pílula
anticoncepcional, (1952), com a exploração da primeira bomba
de hidrogênio (1952), e com outras novidades incríveis como
a vitamina B12 ou a invenção dos aparelhos de telefoto -
ficaram sabendo que a URSS colocou em órbita um satélite
artificial, uma nova lua chamada Sputnik.
Música, literatura, artes plásticas e as próprias
jovens artes do século XX, como o cinema e a fotografia, voltavam-se
para o espírito da invenção e da radicalidade dos
grandes movimentos de vanguarda do início do século.
Após 1945, processou-se em alguns centros da Europa uma espécie
de reavaliação e retomada de certos princípios das
vanguardas que, de alguma forma, haviam-se perdido no emaranhado das duas
grandes guerras. É o caso do grupo Nova Música (Neue Musik),
na Alemanha, que desenvolvia um trabalho de recuperação
das sugestões de Webern e Schönberg. Uma nova geração
de músicos como Pierre Boulez, Luigi Nono, Bruno Madena e Stockenhausen,
passava a generalizar a noção de "série",
aprofundando a experiência da música dodecafônica.
No Brasil, em 1946, surgia o manifesto do grupo Música Viva, criado
pelo regente alemão Hans Joachin Loeklreutter e integrado por jovens
músicos, que atacava o conservadorismo nacionalista e retomava
idéias de vanguarda, especialmente a partir de Schönberg.
Da mesma forma em outras áreas, os primeiros anos do pós-guerra
já sugerem a possibilidade de uma guinada no sentido da inovação.
Alguns signos dessa possibilidade podem ser encontrados em fatos com a
inauguração dos Museus de Arte Moderna do Rio e São
Paulo (1949 e 1948), da I Bienal de Arte de São Paulo(1951) onde
pela primeira vez o brasil fazia uma exposição de arte com
efetiva repercussão internacional e que trazia ao contato do público
e dos artistas locais o que de mais contemporâneo se realizava no
exterior, nos trabalhos de Niemeyer com Le Corbusier, e até mesmo
a disposição de setores da burguesia paulista de financiar
a Cia. Vera Cruz numa tentativa de implantar uma indústria cinematográfica.
Movimento Concreto
Em 1952 começaram os primeiros indícios do
movimento concreto no Brasil. De um lado o grupo Noigandres,
formado nesse momento por Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de
Campos. O surgimento do Grupo vem acompanhado do lançamento, em
São Paulo, do primeiro número da revista, também
com o nome Noigandres. De outro lado, o grupo Ruptura, formado por pintores e escultores também
paulistas: Geraldo de Barros,
Waldemar Cordeiro, Lothar Charoux, Kazmer
Fejer, Haar, Sacilotto e
Wladyslaw. As posições defendidas por estes artistas coincidiam,
naquele momento, com muitas das formulações dos poetas de
Noigandres. O grupo Ruptura iniciava
uma reação, no campo das artes plásticas, a toda
uma vertente subjetivista representada pela pintura figurativista de caráter
expressionista. Ao mesmo tempo, o grupo reagia à tendência
abstracionista, à concepção "hedonista da arte
abstrata", nas palavras de Waldemar
Cordeiro, baseada na criação pictórica anárquica,
sem sentido visual e lógico (tintas jogadas na tela aleatoriamente).
Assim, em nome de uma intuição artística dotada de
princípios claros e inteligentes, de grandes possibilidades de
desenvolvimento prático", o ideal plástico do Ruptura
privilegiava a organização do espaço, a estruturação
das formas e da cores, desvinculadas de conteúdos extra -pictóricos.
O que interessava ao artista concreto, como observou o crítico
Mário Pedrosa, era a "[...] exteriorização precisa
da própria visualidade, uma objetividade formal que aspira o momento
em que a própria mão poderá ser substituída
na confecção do quadro". Do mesmo modo que a poesia
concreta se afastava de suportes semânticos e sintáticos
que permitiam uma decodificação mais discursiva dos poemas,
a pintura concreta propunha uma nova visualidade que, orientada em princípios
geométricos organizados segundo critérios de Gestalt (Teoria
Geral da Forma), proporcionasse ao espectador, uma fruição
objetiva - a composição observada no quadro deveria corresponder,
exatamente, aquilo que o artista concebeu no projeto original da obra.
Um quadro concreto de acordo com Max Bill, seria a "concreção
de uma idéia", uma "realidade que pode ser controlada
e observada". Inserindo-se, portanto, numa tradição
construtiva que tinha como parâmetros o Neoplasticismo de Mondrian
e Vatergerloo, o Suprematismo de Malévitch e as concepções
estéticas de Theo Van Doesburg, as propostas de Max Bill e seus
companheiros da Escola de Ulm, os artistas fundadores do grupo Ruptura
atuaram, ao lado dos poetas concretos, na pesquisa de novas linguagem
e formas de expressão.
A designação
Arte Concreta
A expressão arte concreta foi usada
pela primeira vez no campo das artes plásticas, pelo artista Theo
Van Doesburg, em 1930, e para ele denominava toda arte que se tinha desvinculado
totalmente da imitação da natureza - ou seja, a arte não
figurativa. A denominação passou a ser adotada por artistas,
críticos e teóricos, mas ainda nesse momento, como sinônimo
de arte abstrata. A diferença entre estas duas terminologias se
estabeleceu de fato a partir de 1936, quando o artista plástico
Max Bill formula a sua conceituação de uma arte construída
objetivamente, fundada em problemas matemáticos. Com a criação
da Escola Superior da Forma, de Ulm, em 1951, a expressão arte
concreta passa a designar um movimento, uma tendência definida no
campo das artes. Tomás Maldonado, um dos membros de Ulm, afirma
em 1955: "Não obstante, essa diferença entre arte abstrata
e arte concreta, que no campo era apenas nominalista, tende hoje a assumir
outro significado. Cada dia, acreditamos, torna-se mais evidente que a
arte abstrata difere da arte concreta; que as duas expressões designam
fatos artísticos essencialmente diversos. Essa transformação,
sem nenhuma dúvida, deve-se sobretudo à contribuição
criadora do qualificado grupo de artistas suiços, Max Bill, Camille
Graeser, Verena Loewnsberg, que abriram novas perspectivas a uma definição
da arte concreta sobre novas bases."
A Escola de Ulm foi o mais importante centro europeu das experiências
plásticas de vanguarda dos anos 50, reunindo expressivas tendências
das artes e dando continuidade ao trabalho iniciado pela Bauhaus.
Exposição
Nacional de Arte Concreta
Tendo a poesia concreta atingido o seu
primeiro estágio de maturação - a plataforma teórica
ganhava, cada vez mais, corpo e definição, o "paideum"e
os procedimentos formais básicos já estavam estipulados
- urgia o lançamento oficial do movimento. No final de 1956, mais
precisamente dezembro, acrescida de um novo membro o jovem poeta carioca
Ronaldo Azeredo, a equipe Noigandres,
juntamente com os pintores e escultores aliados à mesma tendência,
realiza a primeira Exposição Nacional de Arte Concreta,
no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Participaram da exposição
os seguintes artistas plásticos: Geraldo
Barros, Aluísio Carvão,
Lygia Clark, Waldemar
Cordeiro, João S. Costa,
Hermelindo Fiaminghi, Judith Lauand,
Maurício Nogueira Lima,
Rubem M. Ludolf, César
Oiticica, Hélio Oiticica,
Luis Sacilotto, Décio
Vieira, Alfredo Volpi, Alexandre Wollner, Lothar
Charoux, Lygia Pape, Amílcar de Castro, Kasmer
Fejer, Franz J. Weissmann,
Ivan Serpa e os poetas: Augusto
e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ronaldo Azeredo, Ferreira
Gullar e Waldimir Dias Pino, especialmente convidados.
A mostra se compunha de cartazes-poemas, apresentados ao lado de obras
pictóricas e esculturas. As soluções gráficas
dos cartazes (padronização de tipos, diagramação)
foram sugeridas pelo artista plástico e publicitário Hermelindo
Fiaminghi, que também participava
do evento. Na ocasião a revista ad-arquitetura e decoração
é contatada através de Waldemar Cordeiro e inclui no seu
n 20 (novembro-dezembro), o material da exposição, funcionando,
assim, como catálogo da mesma. Neste número escreveram artigos
o próprio Waldemar Cordeiro, Décio Pignatari, Augusto de
Campos, Haroldo de Campos e Ferreira Gullar. Foram publicados também,
poemas concretos e clichês reproduzindo os quadros e esculturas
dos artistas expostos. No auditório do MAM, Décio Pignatari
e o crítico Oliveira Bastos pronunciaram conferências sobre
a nova poesia. Paralelamente ao evento, foi lançado o n 3 da revista
Noigandres, trazendo como sub-título, o nome poesia concreta. A
exposição, como era de esperar, repercurtiu nos meios artísticos
e intelectuais da capital paulista. Porém, o impacto maior da eclosão
do movimento concreto vai ocorrer, de fato, quando a mostra é levada
para o Rio de Janeiro, em fevereiro do ano seguinte e montada no saguão
do MEC. A esta altura, o movimento ganha espaço amplo na imprensa,
e jornais e revistas de grande circulação deram cobertura
ao evento.
Há muita controvérsia e muita discussão em torno
da nova tendência e a Exposição Nacional de Arte Concreta
se transformou, entre 4 e 11 de fevereiro de 57, no acontecimento mais
importante da cidade maravilhosa. Foi realizado, sob o patrocínio
do Teatro Universitário Brasileiro, um caloroso debate na UNE,
em 10 de fevereiro. Nessa noite, Décio Pignatari faz uma conferência
polêmica, assistida por importantes figuras da intelectualidade
carioca. Mas talvez, o saldo mais positivo desses acontecimentos, para
os poetas concretos, tenha sido o artigo "A Poesia Concreta e o Momento
Poético Brasileiro", escrito por Mário Faustino e onde,
após um rigoroso balanço da produção poética
daquele momento, o autor de O Homem e sua Hora elegia os poetas criadores
do novo movimento como representantes do que havia de melhor no campo
da criação literária brasileira.
Após a realização da Exposição Nacional
de Arte Concreta, o movimento ganha repercussão. O poeta Manuel
Bandeira, por exemplo, então decano do Modernismo, adere as posições
de equipe Noigandres, realizando alguma experiências poéticas
concretas, ao mesmo tempo que em sua coluna diária de crônica
comentava a renovadora tendência.
Mas uma cisão ocorre dentro do movimento. O poeta Ferreira Gullar
e Reinaldo Jardim desindentificam-se das posições do grupo
paulista, em defesa de uma poesia "subjetivista e intuitiva".
Também o crítico Oliveira Bastos assinou o manifesto da
cisão, embora reconhecendo posteriormente, a validade das propostas
da poesia concreta.
A saída de Gullar, Jardim e Bastos do Movimento de Poesia Concreta
foi motivada pela publicação do ensaio "Da Fenomenologia
da Composição à matemática da Composição".
Dessa cisão, nasceria o movimento NeoConcreto,
que dura de 1959 a 1961. Após esse período, o poeta Ferreira
Gullar renuncia à poesia de vanguarda e parte para uma literatura
de cunho político-participante
A partir da publicação, ainda nesse mesmo ano (1959), do
"Plano- Piloto para Poesia Concreta", o movimento completa maturação
e as irradiações de suas idéias começam a
se fazer sentir não só no próprio ambiente literário,
como também em outras áreas do contexto cultural brasileiro.
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