Texto da Curadora
As exposições itinerantes têm papel fundamental no intercâmbio e nas articulações entre museus, galerias, pinacotecas e outros espaços, aproximando cidades e culturas. São poderosos veículos de divulgação, dinamização e legitimação para uma ampla rede de organismos culturais existentes em nosso país, que uma vez movimentados fomentam a industria cultural e o turismo.
Considerei esse aspecto ao optar por produzir uma exposição que se tornasse uma procissão, passando por vários municípios, interligando seus órgãos de cultura, utilizando suas instalações e recursos humanos em sinergia com a mobilização dos artistas regionais, como forma de experiência de integração, pressupondo uma parceria estimulante a fim de realizar uma política cultural democrática.
A notória urgência da educação e de forma mais abrangente da difusão da cultura é problema comum às pequenas e às grandes cidades, razão pela qual a escolha das cidades envolvidas no projeto não considera sua importância cultural, econômica, ou “curricular” a priori. Aqui, o considerado é a oportunidade de propiciar o intercâmbio entre pequenos e grandes centros, fomentando a discussão do contraponto sagrado e profano nas artes. Produzindo cultura do atrito, que, antropologicamente falando, é inerente à vida do homem e sem o qual seu desenvolvimento teria sido impossível.
Em procissão a associação imediata é o santo. Esse termo hebraico partiu de um conceito primitivo de separação ou remoção do sagrado do profano. O termo é utilizado para descrever algo à parte das coisas comuns, impuras, contaminadas do vício e da idolatria, e que conseqüentemente torna-se um antônimo para tais coisas: o profano.
Hoje, a palavra santo é usada nas mais diversas conotações e seu uso comum como adjetivo foi o que atraiu minha atenção; santo remédio, santa ignorância, santa paciência, expressões que tornaram-se parte de nosso vocabulário cotidiano. De tradição cristã, desde crianças evocamos e proclamamos nomes de Santos, por vezes, até santos que não existem de modo oficial, como os populares São Longuinho e São Nunca. No intuito de criar uma iconografia para esses “santos profanos” convidei onze artistas para desenvolverem essa vertente temática única.
Os protagonistas foram selecionados por sua qualificação e importância. Uns por sua atuação vigorosa e sua trajetória sedimentada no mercado das artes, outros por terem incorporado agilmente os recursos das novas tecnologias digitais e partido para o mundo virtual de onde pretendo resgatá-los, outros por terem uma reflexão interiorizada e uma arte mais intimista transformando a exposição num mosaico de diversidades e processos criativos de trabalho. Assim, aqui atuo como uma tirana obrigando todos a utilizarem o mesmo tema e o mesmo suporte com as mesmas dimensões; a tela impondo a pintura como meio execução, deixando livre, à escolha dos artistas, o santo e a maneira de representá-los.
Essa é a forma que encontrei de agrupá-los e organizá-los. Santa paciência!
Marta Oliveira
Curadora da Mostra
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